Resultado de uma investigação realizada entre 2015 e 2016, Não volte acompanha o cotidiano de pessoas deportadas dos Estados Unidos que vivem em suspensão na cidade de Tijuana. A partir da convivência direta e da escuta dos personagens, Tarifeño constrói uma crônica jornalística que articula relatos de vida com dados, leis, episódios históricos e casos de abuso de poder, evidenciando como políticas migratórias se traduzem em violência cotidiana. No contexto atual de recrudescimento das políticas anti migratórias dos Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump, o livro permanece atual.
Na fronteira do mundo
A jornalista Sônia Bridi, autora do prefácio, destaca o papel do jornalismo em tensionar narrativas oficiais e restituir a dimensão humana dos acontecimentos históricos. “Para compreender a história, é preciso ouvir quem vive diretamente suas consequências”, escreve, contrapondo decisões de poder a trajetórias concretas. Bridi sintetiza o gesto do livro: “A escuta solidária de Leonardo Tarifeño conduz o leitor às histórias de quem tentou mudar o próprio destino ao cruzar a fronteira, mas acabou capturado pelo redemoinho imposto por aqueles que definem os rumos da história.”
No texto da orelha, a jornalista Tatiana Merlino situa Não volte em um panorama mais amplo de violências contemporâneas. Tarifeño “escancara como algumas vidas valem menos do que outras, um paralelo que ele próprio faz com as vítimas do genocídio em Gaza e da apropriação de territórios indígenas no Canadá. E que nos faz lembrar também das vidas ‘menos valiosas’ dos civis iranianos e libaneses, atingidos por bombas estadunidenses e israelenses, assim como dos indígenas brasileiros e latinoamericanos e dos moradores de periferias de nossas grandes cidades, alvos da violência policial”.
O autor amplia esse diagnóstico e analisa, na nota à edição brasileira, como a fronteira deixou de ser um fenômeno localizado ou um lugar apenas físico e passou a funcionar como uma lógica ou condição. Aquilo que Tarifeño chama de “fronteirização” aparece em diferentes contextos do mundo marcados pela supressão de direitos, roubo de território e desumanização – efeitos de uma guerra que também se trava contra a verdade em tempos de desinformação.
Entre o jornalismo e a literatura, Não volte reafirma a crônica jornalística como uma forma de leitura do mundo que confronta a redução da vida à estatística, conectando histórias individuais a processos históricos mais amplos.
Coleção Limiares
Não volte é o primeiro título da coleção LIMIARES. Com projeto gráfico e ilustrações da artista e designer Vânia Medeiros, a coleção tem como foco escritas em zonas de fronteira e conflito. O segundo título é Ver e não ver a Palestina: ensaio em fragmentação, de Ana Gebrim e Marie-Caroline Saglio-Yatzimirsky, sobre a forma como vemos e compreendemos a violência extrema contemporânea.
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Sobre o autor
LEONARDO TARIFEÑO (Argentina, 1967) é jornalista, editor, crítico literário e DJ. Viveu e trabalhou como repórter e editor em Barcelona, Budapeste, Rio de Janeiro e Buenos Aires. É autor de Extranjero siempre. Crónicas nómadas (Almadía-Producciones e El Salario del Miedo, 2013) e No vuelvas (Almadía, 2018). É organizador e produtor do disco Hasta la cumbia siempre (Ultrapop, 2012). Publicou artigos e textos nos livros Roberto Bolaño: la escritura como tauromaquia (Corregidor; Celina Manzoni, org.), Let’s talk about your wall: Mexican writers respond to the inmigration crisis (The New Press; Carmen Boullosa e Alberto Quintero, orgs.) e País tropical. Brasil y su música (Universidad de Guadalajara; Enrique Blanc, Humphrey Inzillo e Roberta Martinelli, orgs.), entre outros. Atualmente reside no México.