“Entre as muitas crises que vivemos atualmente, está a crise do corpo. Por um lado, corpos que passam horas e horas em frente às telas, anestesiados. Por outro, discursos que pregam o corpo eficiente, conduzido por hábitos para uma vida fitness, otimizada ao máximo para a produtividade. O corpo criativo e erótico, canal para experiências sensíveis, criador de subjetividades e afetividades, parece esquecido. Este é um dos pilares de reflexão do Projeto Desandar, da artista Beatriz Cruz, que, agora, materializa-se em forma de publicação impressa.”
Lívia Piccolo, escritora, roteirista e comunicadora, em resenha para a revista Le Monde Diplomatique Brasil.
Livro 1 – Caderno de Programas: série de programas de performance para a cidade, o corpo e o fim do mundo.
O Projeto Desandar surge da experiência com práticas de deriva urbana — de errar pela cidade, de andar sem um rumo ou objetivo a priori. Quanto mais o corpo caminha e se deixa afetar, mais abre espaços internos e produz lugares singulares que ressoam, criam outras direções e estabelecem um percurso infinito entre corpo, cidade e palavra, até — ou para além — do fim do mundo. O livro 1 é um compilado de programas de performance do projeto — dois dos quais se desdobram nos livros 2 e 3.
Livro 2 – Desfrutar-se: uma ode à siririca e ao orgasmo autogestionado como resistência ao patriarcado.
Desfrutar-se é uma ação artística que reúne uma série de relatos de mulheres e pessoas com vulva, coletados e trocados anonimamente. É um dos programas de performance do Projeto Desandar. Os relatos do livro, escritos por diferentes pessoas, fabulam sobre masturbação e frutas. Foram coletados e depois compartilhados em locais públicos, em diferentes suportes: lambe-lambe, performance presencial, videopoema, lives em rede social e vivências em grupo. Este livro reúne ainda fotografias com registros da performance e suas intervenções na cidade.
Livro 3 – Descaracterizar-se: notas sobre 365 dias vestida de outras pessoas.
Descaracterizar-se é uma performance-experiência para habitar outra pessoa – e ser habitada por ela – nos tecidos, nos gestos, na pele. Durante um ano inteiro, Beatriz Cruz não usou suas roupas: convidou pessoas para lhe emprestarem seus trajes, estilos e rotinas de vestir-se. O vestuário produz um espaço de relação e gera trocas afetivas entre quem empresta e quem veste. Roupas, acessórios e objetos tornam-se veículos de memória e identidade, como arquivos vivos: conectam histórias pessoais e sociais, atravessavam as questões de gênero e subjetividades.
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Sobre a autora
BEATRIZ CRUZ é artista baseada em São Paulo. Transita há mais de duas décadas entre artes cênicas e visuais, com criações que investigam os atravessamentos entre corpo, cidade e ativismo. Cofundadora do Coletivo Teatro Dodecafônico, desenvolve práticas de intervenção urbana e projetos de criação coletiva no Brasil, Argentina e Chile. Coidealizou e desenvolve coletivamente, desde 2022, a plataforma virtual SaPatrônica, iniciativa transmídia que parte de uma cartografia afetiva no território e de diversos dispositivos artísticos para a criação de guias audiovisuais com memórias lésbicas e suas relações com o espaço público da cidade.