“Romance de estreia da premiada Ariadna Castellarnau, escritora catalã de língua espanhola publicada agora pela primeira vez no Brasil, Queima se compõe de oito relatos aparentemente autônomos, mas que, ao longo da leitura, se revelam complementares, fornecendo, por vezes, diferentes pontos de vista de uma mesma personagem ou de um mesmo acontecimento. Todos se passam num país devastado, repleto de cadáveres (“como um cemitério com os mortos à vista”), sem lei, sem comida, sem esperança, em que as estradas estão fechadas e os sobreviventes famélicos temem o que nomeiam apenas como o “mal”.
Numa espécie de rito sintomático da desintegração social por que passam, os habitantes desse lugar distópico queimam seus pertences em imensas fogueiras, num grande potlatch em que não apenas as riquezas são reduzidas a cinzas numa autoimolação econômica e catártica, mas também, metonimicamente, as memórias ligadas a cada um desses objetos (e, com elas, as próprias existências dos incendiários).
Assim, podemos compreender, por um lado, a palavra-título deste romance sombrio e perturbador como o substantivo que nomeia essa cerimônia inquietante, à qual as personagens se dedicam de modo obsessivo desde que o mundo começou a dar os primeiros sinais de que entraria em colapso. Por outro, podemos interpretar “queima” (tanto no original em espanhol, “quema”, quanto na sua versão em português) também como a forma imperativa do verbo “queimar” conjugado na segunda pessoa do singular.“Queima” é, portanto, também a ordem difusa, sem origem ou voz definida, que parece emanar do próprio mundo em ruínas para ressoar ao longo de toda a narrativa. É sugestivo que sejam sobretudo as mulheres a atender a esse imperativo fantasma e levar a cabo a conflagração.”
Veronica Stigger, escritora e pesquisadora