Ver e não ver a Palestina: ensaio em fragmentação não explica a catástrofe, nem oferece ao leitor o conforto de uma narrativa totalizante. Em fragmentos de pensamento e testemunho, sustenta o olhar e a linguagem diante dela, sem reduzir sua complexidade.
Ao longo dos ensaios, Gaza aparece não apenas como território devastado, mas como uma condição que afeta a percepção, a memória e a própria linguagem. A partir do que as autoras nomeiam de “virada Palestina”, o livro interroga as condições contemporâneas de ver, narrar e pensar a violência, em tempos marcados pela normalização da brutalidade e pelo consentimento à destruição.
“É um livro muito entrelaçado nessa ideia da interdisciplinaridade, de uma intervenção reflexiva que articula clínica psicanalítica com as ciências sociais, a antropologia, a sociologia, a história, e também com a estética, a arte, a fotografia, o cinema. A nossa parceria parte desse encontro entre a psicanálise e o campo social. E também essa tentativa de escrita em várias mãos, operou quase como um diário temporal do genocídio, feita entre continentes, entre diferentes países”, contam Ana Gebrim e Marie-Caroline Saglio-Yatzimirsky, sobre o processo de do livro.
A palavra que não renuncia
“Enquanto psiquiatra palestina, leio neste trabalho uma compreensão precisa de como a violência opera para além do visível. Fragmentação não é acidental – é manufaturada. Está inscrita tanto no corpo que não pode ser enterrado por inteiro, na criança que se retira da vida, no prisioneiro privado da visão ou na testemunha que é obrigada a ver sem poder reagir. Fragmentar é controlar o que pode ser sentido, lembrado e também lamentado”, escreve Samah Jabr, uma referência no campo da saúde mental em território ocupado, no texto da orelha.
A escrita fragmentária de Ana Gebrim e Marie-Caroline Saglio-Yatzimirsky surge, então, como resposta: uma tentativa de sustentar o que não pode ser plenamente narrado e de recompor, ainda que de modo parcial, a possibilidade de ver e reconhecer.
“Partindo da ideia de que o genocídio abala o campo simbólico e a própria possibilidade de narrar, o livro propõe, com suas próprias limitações, uma tentativa de metabolização, de elaboração ou mesmo de mediação. Mas isso não é feito de forma linear, porque encontramos os limites de falar do genocídio nos moldes convencionais. Diante de um genocídio em curso, há impossível. O que se faz em um genocídio que é negado, silenciado, e que está em andamento? Eu acho que a importância do livro está nesse ponto, não é uma reflexão a posteriori, não é algo que propõe explicar o fenômeno como uma coisa distanciada. É alguma coisa sobre o que se passa no presente, a escrita como um jorro, um vômito ou um soluço diante do silenciamento e da negação generalizada”, reflete Ana Gebrim.
No prefácio, Didier Fassin, antropólogo e professor do Collège de France, situa o contexto em que a escrita se torna urgência: um mundo que rapidamente desvia o olhar de Gaza, enquanto a violência persiste e se normaliza.
“Diante da avalanche de brutalidade e da imposição da lei do mais forte, os instrumentos pelos quais ainda é possível lutar são modestos, mas decisivos. A escrita é um deles. Foi a ela que Ana Gebrim e Marie-Caroline Saglio-Yatzimirsky recorreram neste pequeno livro (…). Seus fragmentos de texto — pensamentos inquietos, inacabados, incertos — expressam essa urgência de não deixar que o esquecimento se instale sobre aquilo que provavelmente aparecerá, em um futuro indeterminado, como a ferida mais profunda da história contemporânea”, afirma Fassin.
Mais do que um livro sobre a Palestina, a publicação é uma intervenção ética e estética sobre o presente. Um convite para confrontar não apenas o que acontece, mas as condições que tornam possível ver e, ainda assim, não ver.
Coleção Limiares
Ver e não ver a Palestina: ensaio em fragmentação é o segundo título da coleção LIMIARES. Com projeto gráfico e ilustrações da artista e designer Vânia Medeiros, a coleção tem como foco escritas em zonas de fronteira e conflito. O primeiro título é Não volte: um jornalista entre os deportados mexicanos em Tijuana, de Leonardo Tarifeño, sobre a política migratória dos EUA e seus desdobramentos na fronteira com o México.
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Sobre as autoras
Ana Gebrim é psicanalista brasileira de origem libanesa. Pesquisadora de deslocamentos humanos e regiões em conflito, tem experiência no campo das migrações contemporâneas, refúgio e trauma psíquico. É autora do livro Psicanálise no Front: a posição do analista e as marcas do trauma na clínica com migrantes (Juruá, 2020), assim como de artigos e ensaios sobre a Palestina, a região do Levante, a clínica psicanalítica em situações de crise social, fronteiras, sofrimento psíquico em contextos de colonização por assentamento, traumas e modalidades narrativas de experiências-limite. Docente do curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Psicologia e Migração da PUC-Minas, integra o coletivo Desorientalismos. É pós-doutoranda no Laboratório de Psicanálise, Sociedade e Política (PSOPOL-USP), doutora em psicologia clínica pela USP e em Antropologia pelo Institut National des Langues et Civilisations Orientales (Inalco), na França, mestre em psicossociologia e sociologia clínica pela Universidade Paris Diderot (Paris 7) e cientista social pela PUC-SP.
Marie-Caroline Saglio-Yatzimirsky é antropóloga, psicóloga clínica e psicanalista francesa. Professora universitária no Inalco; diretora do Institut Convergences Migrations (CNRS); e presidente do Centre Primo Levi (Paris), dedicado ao cuidado e ao apoio de pessoas vítimas de tortura e violência política. Desde 2010, atua também na prática clínica junto a solicitantes de asilo, no âmbito da consulta de psicotraumatologia do hospital Avicenne, em Bobigny. Viveu vários anos na Índia e no Brasil, onde também foi professora convidada no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP). É autora de cerca de dez obras científicas publicadas em francês, inglês e português, sobre as relações entre trauma, linguagem, migrações, violência e exílio, entre elas: La voix de ceux qui crient: Rencontre avec des demandeurs d’asile [A voz daqueles que clamam: Encontro com requerentes de asilo] (Albin Michel, 2018), Violence et récit: Dire, traduire, transmettre le génocide et l’exil [Violência e narrativa: Falar, traduzir, transmitir genocídio e exílio] (Hermann, 2020), Lingua (non) grata: Langues, violences et résistances dans les espaces de la migration [Língua (não) grata: Línguas, violência e resistência nos espaços da migração] (Presses de l’Inalco, 2022) e, mais recentemente, Rassemblement familial [Reunião familiar] (L’Aube, 2026), livro dedicado às experiências contemporâneas de hospitalidade aos exilados.
Ana Minozzo (coautora do epílogo com Ana Gebrim) é psicanalista e pesquisadora brasileira radicada em Londres, no Reino Unido. Doutora e mestre em estudos psicossociais pela Birkbeck, Universidade de Londres; atualmente é pesquisadora de pós-doutorado em estudos psicossociais no FREEPSY, na Universidade de Essex (2023-2027). Tem experiência em diversos serviços comunitários de saúde mental, trabalhando com migrantes, refugiados e a comunidade LGBTQI+. Também fez parte do Psychosis Therapy Project, em Londres, por vários anos. Sua pesquisa e produção acadêmica abrangem os campos das humanidades médicas, do feminismo e dos estudos psicossociais, com interesse especial em ecofeminismo e antropologia médica. Também é membro titular do The Site for Contemporary Psychoanalysis, psicoterapeuta registrada na United Kingdom Council for Psychotherapy (UKCP), e autora do livro Anxiety as Vibration: a Psychosocial Cartography (Palgrave, 2024).